O que o mercado financeiro nos ensina sobre ele mesmo

Este texto foi publicado originalmente em , como parte da Newsletter da Abacaxi (edição 3).

Por , fundador da Abacaxi

Publicado em · 5 min de leitura

Se você estava na Terra na última semana, você está sabendo que tivemos o segundo turno das eleições no Brasil para presidente e governador em alguns estados. Você também está sabendo dos resultados, onde o atual presidente Lula (PT) foi reeleito com 51,79% dos votos válidos frente a 48,21% do candidato derrotado Flávio Bolsonaro (PL).

Pode ser que você não saiba que houve uma grande queda no índice da Bolsa de Valores de São Paulo na última segunda-feira (26), ativando o chamado circuit breaker: um dispositivo que interrompe as negociações por um período para tentar estancar a sangria.

Mas esse índice importa? Bem, ele é o conjunto das maiores empresas com ações listadas na Bolsa, como Vale, Itaú, Petrobras, Axia Energia (antiga Eletrobras), Bradesco, Banco do Brasil, Ambev, etc. As dez maiores empresas do Ibovespa representam mais de 50% de todo o índice. Este pequeno conjunto de empresas, exemplificado acima, guiam o índice pra cima ou pra baixo.

No mercado financeiro, costuma-se dizer que este índice representa o humor do mercado. Quando o dito mercado financeiro gosta de alguma notícia, o índice sobe. Quando ele desgosta, o índice cai.

Afinal, quem faz parte do mercado financeiro? Na teoria, todas as pessoas e empresas têm algum valor investido ou tomam algum crédito. Mas, na prática, poucos CPFs e CNPJs representam mais de 90% do mercado. São grandes escritórios de investimentos de famílias bilionárias, fundos de investimentos nacionais e internacionais, os grandes bancos e o Tesouro Nacional.

Então, quando ocorre algo como os eventos de segunda-feira passada, este pessoal perde muito dinheiro. O dono do banco BTG, o 6º maior do país, perdeu cerca de 30% do seu patrimônio financeiro apenas naquele dia: algo perto de 4,4 bilhões de dólares.

O escritório de investimentos dos Moreira Salles, donos do Itaú, perdeu algo perto de 2 bilhões de dólares e o CEO do Nubank algo próximo de 2,6 bilhões de dólares. Somados, os 10 brasileiros mais ricos perderam perto de 15 bilhões de dólares até o meio-dia.

A pergunta que eu quero fazer é: por que isso ocorreu? Como as pessoas mais ricas do país conseguiram perder tanto dinheiro no jogo que elas mesmas dominam?

Pra mim, a explicação passa por vieses cognitivos. Segundo a Wikipedia, um viés cognitivo é um padrão sistemático de desvio da lógica ou da racionalidade no julgamento e na tomada de decisões. Existem vários vieses no campo das finanças comportamentais que podem nos afetar. Mas, eu creio que dois deles foram preponderantes nesta situação.

O primeiro deles é o viés de confirmação. Ele diz que quando nós acreditamos em algo, todas as informações contrárias à nossa crença são descartadas. O banco BTG, como eu citei o 6º maior do país, emitiu um relatório às vésperas do segundo turno com 27 cenários para o resultado das eleições com projeções matemáticas muito elaboradas. Todos os 27 cenários davam como certa a vitória do candidato Flávio Bolsonaro (PL). Bem, não é preciso ser um gênio em matemática para imaginar que um pleito concorrido e apertado pode cair tanto pra um lado quanto para o outro. Logicamente, alguns desses cenários deveriam apontar a vitória do candidato Lula (PT).

Este viés, que atrapalhou alguns bilionários, pode fazer o mesmo por nós. Quando desconsideramos informações que contrastam com as nossas crenças, podemos ficar cegos. Elas deveriam ser ponderadas adequadamente.

O segundo viés é o efeito manada. Ele nos ajuda a perceber como alguns movimentos são criados sem explicação lógica visível, simplesmente porque algumas pessoas relevantes tomaram um determinado caminho, muita gente os seguirá.

Pense num investidor comum, com suas centenas ou até milhares de reais investidos. Logicamente, se as pessoas mais ricas, acostumadas com o jogo, estão seguindo a direção A, por que ele, um mero mortal, seguiria a direção B?

Justamente, porque os investimentos são pessoais, devemos tomar nossas decisões a partir do nosso planejamento financeiro e do nosso perfil de investidor/a.

Mas, será que fazia algum sentido toda esta movimentação? Será que eles não tinham nenhuma razão em colocar todo este dinheiro em apenas um lado?

Alguns números nos ajudam a enxergar a lógica.

Esta é a variação do próprio Ibovespa em cada um dos mandatos presidenciais desde 2002.

MandatoVariação
Lula 1 (2003–2006)+294%
Lula 2 (2007–2010)+55,8%
Dilma 1 (2011–2014)-27,8%
Dilma 2 e Temer (2015–2018)+75,7%
Bolsonaro (2019–2022)+24,86%
Lula 3 (2023 até 26/10/2026)+60,9% (era cerca de 86% até 23/10)

Conseguimos ver que à esquerda e à direita, o mercado teve ganhos e perdas.

A minha análise é de que o mercado ignorou uma das premissas mais básicas de investimento: não coloque todos os ovos na mesma cesta.

Mas, de qualquer forma, estes eventos nos ajudam a enxergar que o mercado erra muito as suas próprias previsões. Como falei em uma postagem nesta semana, aprendi desde sempre e ensino aos meus clientes e alunos que a bolsa de valores pode não ser o lugar mais apropriado para fazer investimentos no Brasil. Mas, se for fazer, faça com consciência e com prazos longos, sem apostas como os bilionários fizeram nestas semanas.

Renda Variável é investimento de longo prazo.

Este conteúdo tem finalidade educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não garante resultados futuros. Este conteúdo não substitui orientação tributária individual. Antes de tomar decisões financeiras, considere seu perfil, seus objetivos e, se necessário, busque orientação profissional.

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