No último dia 29, falamos de uma dor muito comum nesta época: a cada 4 anos, na véspera das eleições presidenciais, há um temor instaurado sobre o futuro econômico do país e, consequentemente, das nossas economias e investimentos. Se você ainda não leu a edição passada, clique aqui.
Naquele dia, eu disse que o resultado das urnas decide menos da nossa vida financeira do que a mídia faz parecer. Continuo achando. Mas existe algo que a eleição e o planejamento têm em comum, e que eu vejo desde o início da minha carreira como planejador financeiro: o desinteresse.
Votar é obrigatório no Brasil. Mas isso não impediu mais de 33 milhões de pessoas de se ausentarem no domingo, dia 04 de outubro. Longe de mim julgar as pessoas que não puderam ir por N motivos. Mas existe uma parcela destas pessoas que não foram porque simplesmente não quiseram. Na semana passada, o Datafolha divulgou uma pesquisa em que 13% dos que não votaram citaram “desinteresse”. Outros 17% apresentaram motivos diversos e 3% nem sequer sabem por que não foram.
Em sua obra “A República”, o filósofo grego Platão apresenta algumas ideias interessantes: a política e o governo deveriam ser entregues aos mais sábios e virtuosos. Ele criticava a democracia de sua época justamente porque a falta de preparo ou o desinteresse dos cidadãos comuns abria espaço para demagogos e pessoas movidas por interesses próprios. Estes escritos são do século IV a.C., algo como 2400 anos atrás. Parecem bem atuais pra mim.
Trazendo para o nosso campo, algumas frases de desinteresse se repetem: “não é comigo”, “nada muda mesmo”, “prefiro não ver”. Isto se reflete no dia a dia das pessoas. Em uma pesquisa da Nexus de agosto de 2025, com 1.010 brasileiros das classes A, B e C, 55% disseram não ter nenhum tipo de planejamento financeiro para o futuro. Entre as pessoas que fazem algum planejamento, 52% fazem isso apenas “na cabeça”; só 48% usam planilha ou aplicativo. Fazendo a conta, cerca de 22% (45% × 48%) têm algum planejamento formal. Quase oito em cada dez confiam na memória ou em nada.
Na política, quem se desinteressa deixa que outros decidam. No dinheiro é igual, com uma diferença: a fatura chega em reais, e por vários caminhos. Vou mostrar alguns, porque o desinteresse não é neutro. Ele custa, e boa parte desse custo dá para medir.
O imprevisto. Segundo o Datafolha, em pesquisa encomendada pela Planejar (julho de 2025, 2.000 pessoas das classes A, B e C), 43% não têm dinheiro guardado para imprevistos. Sem reserva, o imprevisto vira crédito. Segundo o Banco Central, em junho de 2026 a taxa média do rotativo do cartão foi de 442,4% ao ano, e a do cheque especial, 139,8%. Em juros mensais, isso dá cerca de 15,1% e 7,6%. Um imprevisto de R$ 1.000 que fique três meses no rotativo vira R$ 1.526. No cheque especial, R$ 1.244. Com reserva, o custo é zero. É por isso que, a gente prega que antes de pagar dívidas ou fazer investimentos, a primeira tarefa é a reserva. Além disso, usar todo o dinheiro disponível para quitar dívidas é o caminho mais rápido para ter uma nova dívida: sem folga, o próximo imprevisto volta para o rotativo.
O tempo. Se você tivesse aplicado R$100 por mês a 100% do CDI nos últimos 10 anos (outubro de 2016 a setembro de 2026), você teria hoje cerca de R$20,5 mil: R$12 mil aportados e R$8,5 mil de rendimento, antes de impostos. Quem começou há 5 anos aportou metade, R$6 mil, e tem cerca de R$8,4 mil. Metade do esforço, 40% do resultado. Por isso eu digo que esperar a rentabilidade corrigir anos de inércia é insanidade: o que a gente faz todo mês pesa mais do que qualquer rentabilidade.
O imposto. Este é o custo que mais me interessa mostrar, porque quase ninguém o enxerga como consequência da falta de planejamento. Planejamento tributário começa antes de março. O prazo que importa é 31 de dezembro (na data desta edição, 14 de outubro, faltavam 78 dias): é até lá que um aporte em PGBL pode abater até 12% da renda bruta tributável na próxima declaração. Isso vale para quem faz a declaração completa, tem renda tributável e contribui para o INSS ou para um regime próprio de previdência. Não serve para todo mundo, mas tem muita gente nesta situação que está deixando passar a oportunidade mais clara possível.
O que não aparece em planilha. Sem um seguro, uma doença grave, um acidente ou o falecimento de quem sustenta a casa abala financeiramente toda a família. Em um momento onde a emoção é mais forte, a preocupação com dinheiro fica gritando. Em outros casos, sem um planejamento sucessório, uma herança pode virar disputa entre herdeiros e custos desnecessários. Aqui não tenho um número exato para dar, e prefiro não inventar um. O que posso dizer é que ninguém contrata essas proteções no dia em que precisa delas.
Reparou que todos esses custos vêm do mesmo lugar? Deixar pra lá. Decidir não decidir. Ficar parado.
Ter um planejamento não é garantia de que tudo dará certo, mas a falta de planejamento é garantia de que nada dará certo. Afinal, como diria o poeta, pra quem não sabe onde quer ir, qualquer caminho serve. E o primeiro passo é o mesmo em todos os casos: conhecer a sua realidade completamente, sem nada encoberto. Saber tudo é o início da mudança.
Não escrevo isto para quem está cansado, porque todo mundo fica de vez em quando. Escrevo para quem quer decidir ter mais tranquilidade para os momentos em que sentir cansaço.
Nosso convite a você é começar, de onde estiver, como estiver, usando a ferramenta que quiser. Caso queira alguma ajuda, fale conosco.